INFELICIDADES: LEMBRANÇAS.

Eu tinha cerca de cinco ou seis anos, estava sentada em uma almofada pequena e fina com estampa de ursinhos, normalmente ela era a cama das minhas bonecas, mas naquele dia eu estava doente e não podia sentar no chão. Minha mãe estava passando roupas. A vizinha da frente e a filha dela chegaram em casa. Eu fui brincar com lama com a menina. Elas foram embora. Minha mãe brigou comigo, porque eu já tinha tomado banho.

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Eu não tenho muitas lembranças da minha infância.

Dizer isso parece um pouco chocante, como se minha infância tivesse sido tão traumática que meu subconsciente deu um jeito de suprimir tudo isso. A verdade é que as coisas nem sempre foram tão boas, mas não acho que tenha sido esse o fator principal do desaparecimento dessas lembranças, porque existiram muitas coisas boas. Eu me lembro de algumas coisas, não lembranças inteiras, ou diálogos, datas, dias, anos. E eu já tentei juntar tudo isso, mas o que eu consegui foram alguns fragmentos de lembranças e um deles que é o mais nítido de todos nunca aconteceu. Esse momento em especial era o que eu tinha mais certeza e um dia minha mãe me disse que nunca aconteceu. Foi tudo coisa da minha imaginação.

Eu não me lembro quantos anos tinha, mas era muito pequena. Estava em uma poltrona preta, a almofada dela tinha uma estampa floral verde. Eu estava com meu ursinho. O dobermann de um dos vizinhos estava na minha frente. Baba escorria de sua boca. Seus olhos e boca eram ferozes.
Eu não consigo fugir.
Eu tenho um pavor absoluto de cachorros.

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Eu não sei dizer com clareza em que momento eu comecei a deixar essas lembranças escaparem, mas se eu tivesse que contar em que momento minha vida, ou a falta dela começou, eu saberia dizer com exatidão.

Foi aos onze anos. Dia vinte e quatro de novembro de 2004: Minha irmã tinha feito quinze anos naquele mesmo mês, ela passou a noite toda acordada vendo televisão. Eu acordei as cinco e alguma coisa da manhã, usava a camiseta branca do uniforme da escola, leggings azuis desbotadas, um tênis conga de velcro que eu amava. Meu pai não usava a roupa do trabalho.  A gente chegou ao hospital um pouco antes das sete da manhã. Eu fiquei esperando no carro com o meu pai, a gente conversava naquela época. Minha sobrinha nasceu as sete e vinte e cinco. Minha mãe ficou no hospital com ela. Meu pai me levou pra casa. No meio do caminho, perto de uma venda, um pássaro cinza bateu no para-brisa do carro e morreu. Eu me assustei. Perto das onze da manhã, eu peguei o ônibus da escola.

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Todas as minhas lembranças mais completas, são datadas depois daquele dia.

Eu sei muitas coisas. Muitas mesmo. E fotos, tenho centenas delas. Sei listar nome de pessoas que estudaram comigo nas várias escolas em que estudei, sei o nosso último endereço na cidade. Sei que tive diários e até que minha irmã escrevia neles sobre o menino que eu dizia gostar. Sei também muitas histórias sobre mim mesma: eu comia terra (sim, eca); um dia brincando com minha irmã eu caí do sofá e quebrei a clavícula e passei uma semana sem ninguém acreditar que eu realmente estava com dor; eu era um pouco dramática também; o ursinho que eu tenho até hoje, foi meio que roubado da minha irmã. Mas tudo isso me foi dito, ou registrado em fotos. Quando eu tento lembrar de qualquer uma dessas coisas, nada acontece. A sensação que eu tenho quando ouço sobre mim, é que são histórias que aconteceram com outra pessoa, assim como todas aquelas fotos, da garotinha que tem o meu rosto, mas não reconheço.

Eu tinha cerca de sete ou oito anos. Estava andando em uma calçada de paralelepípedos. Uma mulher loira, sorridente, rica, com cara de bruxa falou com a gente. Eu estava dentro do estúdio de uma rádio, ia cantar uma música de dia dos pais. O locutor da rádio disse que a diretora nunca falou com eles. No meio da música, o DJ da rádio, colocou uma música em outra sala e eu vacilei.

Meu pai nunca ouviu.

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Durante a minha vida toda eu nunca fui extrovertida. Minha mãe sempre me disse isso, mas ela não estava tão certa. Ela não sabia até algum tempo atrás que quando eu estudei em uma das muitas escolas que frequentei, eu participei de um coral, de uma turma de teatro, de um grupo de dança e apresentei, participei e escrevi pelo menos três peças de teatro. Eu amava aparecer em todas as fotos. Eu cantei na rádio, quase participei de um concurso de miss infantil e a dona da loja onde estavam fazendo as inscrições queria me patrocinar.

Eu era bem pequena, estava na recepção do hospital da minha cidade. Eu chorava e gritava. Minha mãe apareceu na porta com a camisola do hospital. Ela não foi pra casa.

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Quando eu paro para pensar sobre isso, me sinto como se uma parte da pessoa que estava destinada a ser sumiu junto com essas lembranças. Como se tudo o que eu não consigo me lembrar, me tornou essa pessoa triste, meio insensível e que tende a sentir uma raiva absurda muito fácil. Se as escolhas erradas da minha irmã mais velha, tiraram todas e qualquer tipo de escolhas que eu pudesse vir a fazer por mim mesma e eu me tornei apenas uma sombra, ou aquela pessoa que odeia tirar foto e às vezes sai por engano no fundo da foto das outras pessoas.

Tem dias que penso que talvez se tentar me lembrar com muita força, alguma dessas partes, uma importante, vai voltar para mim, e algo vai fazer sentido, me mudar de algum jeito. Mas às vezes tenho medo de que tudo isso vai voltar de uma vez, me atingir como um raio e me partir em duas, só não sei o que é pior.

Clarice Lispector disse: “Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.”

É como eu me sinto. É como se o peso dessas lembranças que eu deixei escapar, tivessem levado um pedaço da minha alma, como se ela não pesasse tanto como as outras, mas de um jeito ruim, o pior jeito. Como se eu não fosse uma pessoa inteira e estivesse destinada a ficar perdida no meio de todo esse vazio, incompleta.

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