Tá tudo bem não ter todas as respostas.

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Quando eu me imaginava no futuro, pensava em mim, como uma daquelas meninas silenciosas que sentam em cafés, por horas, apenas na companhia de um livro. Aquelas que parecem completamente serenas e bem resolvidas com o mundo.

A parte estranha é que, eu nunca, nem mesmo, gostei de café.

Pensando bem, provavelmente sou aquela garota, apenas não tão misteriosa quanto achei que seria, só… mais desiludida e nenhum pouco resolvida com o mundo. Mas atuo a serenidade muito bem.

Acho que a vida faz isso com a gente, vai matando os sonhos. Vai colorindo tudo de cinza.

Fazendo a gente endurecer nas bordas.

Eu fiquei doente no meu último dia de aula da escola, apenas fiz minhas provas e não me despedi de ninguém. Nunca parei para pensar que existiam pessoas ali que eu nunca mais iria ver na vida, nem que as vidas de algumas delas seriam tão curtas. Quando a gente é jovem, pensa que o dia seguinte a liberdade vai durar pra sempre e a gente fica tão ansioso que o dia chega e passa e nada acontece, mas não pensa sobre isso e continua esperando naquele recreio eterno, o extraordinário acontecer.

A verdade é que provavelmente nada de extraordinário vai acontecer, então nossa noção do que é extraordinário vai mudando, diminuindo, minguando, até se transformar em satisfação momentânea, e começa a esperar pelo normal, pelo simples, pelo banal.

Eu fui excluindo as pessoas da minha vida, desde a época da escola, chegando num ponto onde eu falava com todo mundo, mas não tinha nenhum amigo, e isso se mudou junto comigo pra vida adulta. Aos poucos, fui mandando todo mundo embora, encurtando todos os “ois”, contornando todos os diálogos inevitáveis e trancando o mundo todo de mim.

Eu criei uma ideia tão grande de não amar, de não precisar, de não querer que acabei me tornando uma dessas pessoas carentes de vida, que se recusam a acreditar em relacionamentos, ou em sonhos.

Eu queria o mundo, então de repente, eu só precisava de uma pausa dele.

A grande regra da minha vida se tornou “não deixar nada muito pessoal”.

A gente precisa marcar de se ver um dia” “Claro, vamos marcar”, eu me tornei a epítome dessa garota. Não ia sentar com ninguém pra brincar de ser banal e em seguida contar o fracasso da minha vida. Não quando há apenas alguns anos eu parecia ter tudo planejado, e pronto pra ir.

Anos atrás, eu precisava que alguém me dissesse, tá tudo bem não ter todas as respostas, você provavelmente nem vai precisar de todas elas.

Eu tô fazendo tudo errado, errando, errando e errando cada vez mais, provavelmente fazendo um estrago tão grande que alguma coisa aqui dentro vai ficar irreparável, mas tô tentando acertar também. Só não quero que mais ninguém se machuque no processo, porque embora a fachada insensível continue de pé, eu ainda me importo.

Eu ainda quero viver, ter as perguntas certas e aprender como responde-las por mim mesma. Quero aprender a sorrir, a sentir, a falar, a deixar as pessoas voltarem a entrar. Quero reaprender a conhecer as pessoas, começar as conversas e saber mais sobre elas. Quero aprender a lidar com o medo de que as pessoas vão me decepcionar, se decepcionar comigo ou ir embora.

Não quero deixar passar aqueles momentos, aqueles que podem ser os únicos, os últimos, os mais preciosos.

Eu ainda quero sonhar, ter fé, no mundo, no céu, nas pessoas, em mim.

Eu quero respirar o mundo e tirar todas essas travas e cadeados que eu coloquei ao meu redor e responder um sim de verdade pra cada pessoa que eu não vejo há muito tempo.

Quero guardar meu livro na bolsa, pedir chocolate quente, ou alguma mistura doce que vá pouco café e muita espuma, deixar a fachada ir, rir e me concentrar nas pessoas que estão na mesa comigo.

E dizer pra qualquer um tão perdido quanto eu, que não tem problema não ter todas aquelas respostas, a gente nem sempre vai saber o que fazer com elas e as perguntas estão sempre mudando.

Tá tudo bem não ter grandes sonhos também, e se você tiver sonhos enormes, tá tudo bem também.

Não tem problema amar cafeterias pitorescas e odiar café.

Não tem problema tirar uma folga do mundo, das pessoas e tirar um tempo pra você.

Não tem problema ser você.

Não tem problema se perder no caminho, ou ir devagar, um passo de cada vez. Ninguém escreve seu caminho, só você.

Não tem problema estar triste, se desiludir, errar, errar e errar.

Só tem problema desistir de você e achar que você merece menos do que o extraordinário.

Porque você merece.

Tudo.

E eu também.

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7 comentários sobre “Tá tudo bem não ter todas as respostas.

  1. Katlyn disse:

    Vc definiu tudo que eu sinto…
    Que bom eu saber que não sou a única a me sentir assim…
    Metade do tempo me sinto cansada da vida e das pessoas…
    De tudo sempre ser a mesmaaaa coisa…
    Também me fechei.
    É tão fácil fazer isso…
    O problema é que ao forjarmos esse cadeado magicamente impenetrável para nos trancarmos do lado de dentro e deixar as pessoas do lado de fora…Nos esquecemos de lá no ínicio fazer a chave se um dia nos cansarmos de ser fechadas e impenetráveis.
    Sabe o livro pequeno principe?
    Em que ele pede para o piloto perdido desenhar um carneiro para ele para ele levar quando voltasse ao planeta dele para encontrar a rosa amada e o piloto esquece de desenhar um cercado ou algo para o carneiro se manter longe da rosa e todas as noites o homem se perguntava se o carneiro havia escapado da vigilância do pp e havia comido a flor?
    Desse jeito mesmo…
    Esquecemos que temos sempre que ter o plano b se o a não der certo…Esquecemos do paraquedas e só saltamos…
    No caso do cadeado,esquecemos de forjar a chave que é o plano b para mudar novamente…
    Nem imagino como fazer para abrir meu cadeado chato…
    E isso…
    É tão frustrante e triste…

    Curtido por 1 pessoa

    • Carolina disse:

      Acho que só dá pra saber na base do erro e acerto. Nada é incorrigível, ou quase nada é. Só não dá pra desistir. Por mais difícil que seja, a gente tem que se deixar confiar em alguém, nem que seja com a pequenas coisas, ou pra conversar coisas banais. Isso acaba salvando o dia mais do que uma conversa profunda faria. Um degrau por vez, só não dá pra se conformar :/

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  2. cindydarosa disse:

    Parabéns por esse texto tão íntimo, vulnerável e relacionável! Há tempos que me sinto exatamente assim, mas a intensidade das minhas angústias impedem que eu consiga formar frases coerentes. Obrigada por colocar isso no papel tão bem! Precisava mesmo saber que alguém também se sente dessa maneira. Todo amor do mundo para ti 🖤

    Curtido por 2 pessoas

  3. nopontodepartida disse:

    Olá Carolina, tudo bem? Gostei muito da tua reflexão, muito humana. Muito próxima daquilo que somos, ansiamos e tememos…
    É um ato de coragem reconhecer nossa vulnerabilidade…isso é inspirador, viu? Muito obrigada por me fazer refletir sobre estas questões…

    Grande abraço!

    Curtido por 1 pessoa

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